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Como usar o botão delete do seu cérebro

Como usar o botão delete do seu cérebro

Exercitar o cérebro constantemente é o grande segredo para aprender e fixar conteúdos. A ciência defende que, quanto mais um circuito neurológico é executado no cérebro, mais forte ele se torna. Apesar da grande capacidade cerebral, uma medida importante, mas pouco lembrada, também deve ser tomada para melhorar a performance da mente: aprender a “deletar” as informações.

Parece estranho, mas nosso cérebro limpa diariamente o conteúdo que considera excessivo ou desnecessário para dar espaço a novas informações, em um processo chamado de “poda sináptica”. Além dos neurônios, o tecido nervoso conta com células auxiliares com funções específicas que dão suporte ao funcionamento do sistema, as chamadas “células da glia”. Uma delas, a micróglia, é especializada no processo de digestão celular. É ela a responsável por limpar nossa mente, podando certas conexões sinápticas.

Mas como elas sabem quais conexões devem podar? De acordo com o site FastCompany, os pesquisadores estão apenas começando a desvendar o processo, mas já sabem que as conexões sinápticas menos usadas – e, portanto, aptas a serem deletadas pelo cérebro – são marcadas por uma proteína chamada C1q. Quando a micróglia detecta essa marcação, ela se liga à proteína C1q e destroem a sinapse indicada. Dessa forma, o cérebro passa a ter mais espaço para construir novas e mais fortes conexões para aprimorar o aprendizado.

Como apertar o botão
A sensação comum de que o cérebro está “cheio” após um dia de muito trabalho ou de estudo intenso não acontece por acaso. Nossa mente precisa mesmo descansar para que o sistema nervoso se recupere e a micróglia entre em ação. Durante o sono, as células cerebrais encolhem até 60% para dar espaço ao processo de limpeza e renovação das conexões sinápticas. É por isso que, após uma noite bem dormida, temos a sensação de que podemos pensar com mais clareza e rapidez.

Essa é a mesma razão pela qual os cochilos durante o dia são tão recomendados para o aprendizado. Pequenos momentos de descanso dão à micróglia a chance de entrar, limpar algumas conexões não usadas e deixar espaço para as novas. Um estudo de 2010 feito por pesquisadores da Universidade da Califórnia pôde comprovar a eficiência do cochilo ao realizar uma pesquisa com 39 participantes divididos em dois grupos. Ambos tiveram que realizar uma tarefa ao meio-dia envolvendo a absorção de muitas informações. Às 14h, um grupo tirou um cochilo de uma hora e meia, enquanto o outro permaneceu acordado.

Às 18h, os grupos refizeram a tarefa. Os resultados mostraram que não só o grupo que dormiu teve uma performance melhor que os acordados, mas também superaram suas próprias marcas antes do cochilo.

Pensamentos recorrentes indicam ansiedade e depressão
A capacidade de estimular o cérebro conscientemente vai além: manter a concentração sobre os acontecimentos e informações importantes pode ativar a marcação de C1q, ajudando o tecido nervoso a eliminar o que não é relevante. Dessa forma, passar menos tempo refletindo sobre temas improdutivos e voltar o foco para o que realmente importa é o caminho mais rápido para esvaziar a mente.

Ter a cabeça ocupada por pensamentos recorrentes também pode acender um sinal de alerta, pois a persistência de certas reflexões pode ser um sintoma do Transtorno de Ansiedade, segundo a psicoterapeuta Elaine Mardegan. “Estes pensamentos podem causar um medo aterrorizante sobre coisas nas quais pessoas não pensariam duas vezes. Muitas pessoas com transtornos de ansiedade entendem que seus pensamentos são irracionais, mas ainda assim não conseguem detê-los, e por isso passam a maior parte de suas vidas em um estado agitado”, explicou Mardegan a EXAME.

“Depois de um tempo, isso pode ter um enorme impacto emocional, e muitas vezes a depressão se instala. Não há explicação conclusiva sobre por que a ansiedade e a depressão coexistem com tanta frequência, mas é muito comum”, afirma a psicoterapeuta.

Um estudo de 2013 feito pela Escola de Medicina de Harvard com 2.197 adolescentes e adultos ao longo de um ano demonstrou que a exposição a eventos estressantes tende a levar as pessoas à “ruminação dos pensamentos”, indicando que a atenção ao surgimento de comportamentos parecidos pode ajudar a prevenir problemas com a saúde mental.

Exercícios para assumir o controle
Mardegan sugere algumas maneiras de lidar com os pensamentos recorrentes. “Escreva os pensamentos um um diário, mude o foco com uma distração, pratique uma atividade física e evite rotinas estimulantes próximas ao horário de dormir”, indica.

Além disso, praticar a aceitação costuma ser eficaz. “Muitas vezes, os pensamentos acelerados tornam-se piores quando você faz duras tentativas para detê-los. Ficar chateado com isso só vai torná-lo mais irritado e fazer com que seus pensamentos aumentem ainda mais”, explica ela.

Para melhorar o aprendizado, a psicoterapeuta dá algumas dicas que envolvem concentração e descanso.

Exercite-se com regularidade. “É claro que os benefícios do exercício são numerosos, mas para o cérebro, em particular, o exercício regular é fundamental para melhorar as habilidades cognitivas, além de aumentar a capacidade da memória espacial.”

Mastigue chiclete enquanto aprende algo novo. “Um motivo pelo qual a goma de mascar pode afetar nossa lembrança de memória é que ela aumenta a atividade no hipocampo, uma área importante do cérebro para a memorização. Outra teoria se concentra no aumento do oxigênio provocado no organismo pelo ato de mascar, melhorando desta forma o foco e a atenção, ajudando-nos a criar conexões mais fortes no cérebro à medida que aprendemos coisas novas.”

Medite para melhorar a memória de trabalho. “A meditação tem o poder de nos ajudar a nos concentrar, e como é algo contra intuitivo, também ajuda a ‘esvaziar a mente’. Além disso, ao meditar, você vai se sentir um pouco menos estressado, o que ajudará a se lembrar um pouco mais do que realmente é importante.”

Durma mais para consolidar memórias. “É quando dormimos que ocorre a maior parte do nosso processo de consolidação do que aprendemos, assim faz sentido que, sem dormir o suficiente, tenhamos dificuldade em lembrar as coisas que precisamos.”

Elimine ruídos. “O estresse resultante do ruído de fundo pode diminuir a função cerebral, prejudicando o aprendizado e a memória”.

Melhore seu foco para potencializar sua memória. “Para isso, é necessário eliminar distrações e interrupções, como notificações de aplicativos, YouTube, telefone. Esses fatores tornam quase impossível alcançar um alto nível de concentração – o que é uma notícia terrível se você está tentando melhorar a memória e aprender. Então, sempre que possível, silencie todas as notificações, trabalhe em um tópico por vez e evite atividades de multitarefa e de alternância”.
Fonte: Exame.com – Por: Ariane Alves

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